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Sábado, Abril 05, 2008

Quem disse que não existe vida inteligente em Portugal?

Trecho do artigo "Muito Barulho Para Nada" publicado pelo historiador português Vasco Pulido Valente no jornal português "Público" em 21/03/2008, traduzido por mim do português para a língua brasileira:

"...O dr. Vasco Graça Moura* e outras pessoas sensatas fizeram o erro de atacar o acordo ortográfico luso-brasileiro minuciosamente. A essência dessa monstruosidade acabou por se perder numa discussão técnica por que ninguém se interessa e que ninguém consegue seguir. A essência da questão é, no entanto, clara. A ortografia portuguesa e a ortografia brasileira são diferentes, porque a língua portuguesa e a língua brasileira são diferentes: a fonética, a sintaxe, a semântica. O brasileiro evoluiu e continua a evoluir de uma maneira e o português de outra. Este processo não vai evidentemente parar e vai reduzir a um triste exercício de futilidade qualquer acordo que os sábios daqui e de lá (e talvez depois de Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné) se lembrem de congeminar..."

*Vasco Graça Moura é um escritor e político português que também é contrário à essa imbecilidade de des"acordo" ortográfico entre o Brasil e Portugal.

Quarta-feira, Maio 02, 2007

A Língua Brasileira

Artigo escrito, em 1983, pelo professor, crítico literário, ensaísta e imortal da ABL (Academia Brasileira de Letras): Afrânio Coutinho.

Em 1935, por Decreto no 25, de 16 de setembro, a Câmara Municipal do antigo Distrito Federal, baixou uma determinação no sentido de "que os livros didáticos só sejam adotados no ensino municipal quando denominarem de Brasileira a língua falada no Brasil (Diário Oficial, 17-09-1935, Atos do Poder Legislativo da Prefeitura do Distrito Federal). Transcrevem-se adiante itens do decreto:

1o - Os livros didáticos, relativos ao ensino da língua serão adotados nas escolas primárias e secundárias do Distrito Federal quando denominarem de Brasileira a língua falada e escrita no Brasil;

2o - Nos programas de ensino, os capítulos referentes à língua pátria deverão referir-se, exclusivamente, à língua brasileira;

3o - As denominações das cadeiras de ensino da língua pátria, em todos os estabelecimentos de ensino mantidos pela Municipalidade serão imediatamente substituídas pela denominação Língua Brasileira.

Como foi que uma decisão dessa natureza não se levou em consideração e passou para os atos que não se cumpre, como há inúmeros no Brasil?

A filologia brasileira e os professores de vernáculo teimam em não enxergar a evidência da transformação radical que está sendo operada na fala e na escrita da língua usada em nosso país. Os professores continuam a ensinar uma língua totalmente defasada em relação ao uso. Quem faz uma língua é o povo, todos sabemos disso. Desde o século XVI que a nossa está sofrendo um impacto violento das novas condições geográficas, políticas, sociais, literárias, interpretados pela população local. Inúmeros são os testemunhos que referem essa transformação. E os escritores utilizam as formas novas e as interpretam, em sintonia com a fala corrente. Exemplo gritante é o de Gregório de Mattos, criador de uma tradição nova que a linguagem literária adotaria e desenvolveria através dos séculos. O Padre Antônio Vieira escandalizou os ouvintes em Lisboa, ao pregar com o sotaque brasileiro (já no século XVII). Ele mesmo recomendava aos noviços na Bahia que seguissem a língua "brasílica" ao pregar aos silvícolas.

Há um divórcio muito profundo entre o que ensaiam os filólogos tradicionalistas e lusófilos e o que pensam e praticam os escritores. Os primeiros fazem finca-pé na defesa das normas lusas. Perguntei certa feita a um professor se ele considerava erro, numa prova, o aluno escrever - eu vou lhe visitar hoje. Imediatamente respondeu que sim. E se seu filho, na mesa, disser coisa semelhante, que fará? Ele embatucou.

Enquanto isso os escritores, na linguagem literária, há muito tempo, já oficializaram a língua falada, já a introduziram na sua escrita, já lhe deram foros de cidade. E a evolução dessa prática só tem sido crescente e alarga-se. Ninguém conseguirá deter essa onda, nem toda a filologia tradicional junta.

O que temos de fazer é adotar logo a denominação "língua brasileira" como título da nossa língua.

Os holandeses assim o fizeram em relação à língua materna - a alemã. Hoje só se referem à língua holandesa e não gostam quando alguém lhes fala em alemão.

Por que continuamos com essa atitude de subserviência e não partimos para dar curso à resolução da Câmara Municial do antigo Distrito Federal? É uma opção que se impõe a um povo de 130 milhões de habitantes, senhor do seu destino. Aliás, já Gonçalves Dias empregou a expressão "língua brasileira".

POR UMA FILOLOGIA BRASILEIRA

A diferenciação lingüística do Brasil é um fato insofismável, e a própria linguagem literária veio progredindo no mesmo sentido, tendo-se acelerado a partir do Romantismo. José de Alencar defendeu-se e o próprio Gonçalves Dias já fala em língua brasileira. Há um grande divórcio entre os escritores, que a praticam, e os filólogos, que propugnam uma intransigente fidelidade aos cânones portugueses. Sobretudo, no século XIX, os filólogos e gramáticos optaram por essa orientação, o que redundou num recuo em favor da norma lusa. A discussão em torno do Código Civil, em 1902, quando se digladiaram Rui Barbosa e Carneiro Ribeiro, constituiu o clímax dessa reação lusófila. Outro fator importante na mesma direção foi a influência de um pseudo-filólogo, Cândido de Figueiredo, ao iniciar a moda dos consultórios gramaticais do que se deve ou não deve dizer, como se a linguagem de um povo fosse um fenômeno resultante de pressão de cima para baixo, consoante uma teoria do certo ou errado, que a lingüística moderna pôs por terra.

Mas os consultórios difundiram-se por todo o país, e o ensino do vernáculo a se fazer com a linguagem submetida a uma camisa-de-força. Quem estudou a língua nas primeiras décadas do século XX sabe disso e sabe como foi grande o fosso entre a língua falada e a escrita. E assim foram também educados os professores de português.

Por isso, a codificação da linguagem dominante no país não foi efetuada. Poucos eram os que reagiam na defesa da fala brasileira.

Aos poucos espaçadamente, sempre apareciam os que se situavam do lado de cá. Não era fácil porque a presença da filologia lusa era maciça e prestigiosa, e os que não seguiam cegamente não eram levados a sério.

De qualquer modo, temos adquirido cada vez maior consciência de que se impõe a criação e consolidação de uma filologia brasileira, dedicada ao estudo e codificação da linguagem brasileira, fenômeno vivo de mais de cento e vinte milhões de falantes. Ainda temos o vezo herdado de malsinar a fala corrente e coloquial dos brasileiros, sobretudo a dos jovens, que estão produzindo verdadeira revolução nesse particular, com a agravante de se espalhar através da televisão e outros meios de cultura de massa. Não há gramática tradicional que resista à profunda transformação que se está realizando graças à juventude, que não sofre o que sofreram os seus pais e avós - a escravização à norma tradicional através da escola, que era instrumento altamente reacionário e retrógrado, como ficou afirmado acima. Para isso, concorreu muito a decadência do ensino oficial arcaizante do português.

Sem dúvida que existe uma pequena mas alta linhagem de filólogos brasileiros independentes, cujo exemplo e lição têm que ser considerados quando se pensar em estabelecer uma filologia brasileira. Pergunto sempre se os holandeses pensam no idioma alemão sempre que falam e redigem suas gramáticas da língua neerlandesa.

Nós temos uma boa plêiade de filólogos precursores da gramática da fala brasileira, que está na linha do pensamento de Alencar a Mário de Andrade. Aí se encontram um João Ribeiro e um Said Ali, um Antenor Nascentes e um Clóvis Monteiro. Este último, em tese notável, estudou as diferenças entre o português da Europa e o da América, reconhecendo assim o processo de diferenciação, a que Nascentes, num gesto precursor em favor da nossa originalidade, chamou de idioma nacional, chamando a atenção para fatos como o "lheismo" brasileiro, isto é, o uso de "lhe" em lugar do "o" com verbos de regência acusativa, fato generalizado no Brasil: eu vou lhe ver, visitar, convidar, e inúmeros outros que se tornam característicos da linguagem brasileira. É um caso típico de anacronismo um professor marcar erro em trabalho de aluno que escreve "vou lhe visitar hoje", quando sabe que todo o mundo fala assim no Brasil. E este é um fato de sintaxe e não de vocabulário ou sotaque. Esses e outros fatos é que devem ser coletados na elaboração de uma filologia brasileira.

Mas a grande figura dessa luta foi um Professor da Bahia, que, intimorato, enfrentou o maior bastião da reação, a congregação do Colégio Pedro II, com uma tese revolucionária na teoria e na prática que defendia - que eram os valores da linguagem brasileira. Chamou-se Herbert Parente Fortes, e sua obra de vários volumes é um começo e um exemplo do que deverá ser um dia a filologia brasileira. Vanguardista, ele tinha a coragem das idéias que formara, e as afirmava sem rebuços. Vi-o em atitude de verdadeiro espadachim, a esbravejar contra os preconceitos e doutrinas estabelecidas pela inércia e subserviência. Um bravo, cuja obra servirá de modelo aos estudiosos e pesquisadores futuros da nossa realidade lingüística.

O ENSINO DO VERNÁCULO

É de comprovação facílima o fato de que o uso do vernáculo no Brasil vem sofrendo nas últimas décadas uma sensível queda de nível de qualidade. A cada hora, através da imprensa falada, tomamos conhecimento das verdadeiras barbaridades cometidas sobre o uso normal da língua. Há dias, uma personalidade de destaque de um de nossos parlamentos dizia tranqüilamente que "nenhum de nós podemos". Coisas desse jaez ouvimos a todo o momento, conseqüência do péssimo ensino do vernáculo atualmente em vigor.

É claro que nesta censura não estão incluídas as legítimas transformações da nossa língua - oral e escrita - e que vão constituindo a diferenciação lingüística no sentido de se criar a língua brasileira, fato contra o qual não há barreiras que se possam opor. Só a história poderá dar a confirmação dessa assertiva. Não há que confundir as duas faces do problema. No Brasil, a evolução lingüística é um fenômeno irrecusável que só os filólogos e professores reacionários não querem reconhecer. Há fatos lingüísticos de gritante significação - não apenas na área vocabular e fonética, senão também no campo da sintaxe - que falam bem alto quanto à tendência diferenciadora, cada vez mais forte. É caso semelhante ou idêntico ao que ocorreu com os holandeses, que, diante da diferenciação evidente em relação ao idioma materno - o alemão - decidiram batizar a própria língua como holandesa (neerlandesa) e não toleram que se diga que eles falam alemão.

Nós aqui também não levaremos muito tempo para adotar a denominação de língua brasileira, quando se solidificar o processo da descolonização e vencermos o sentimentalismo e saudosismo que ainda nos amarram.

Mas não confundamos as coisas. Dizer "nós vai" ou "nenhum de nós podemos", é simplesmente ignorância, jamais tolerada por qualquer gramatiquinha da língua brasileira. Isso é bem diverso de um fenômeno como "eu vou lhe visitar hoje", e "eu lhe convido para jantar", "há muito tempo não lhe vejo, lhe encontro", ou então "não estou lhe falando", etc. fenômenos esses da linguagem corrente em todo o país, e que, como muitos outros nenhuma gramática normativa tradicionalista jamais conseguirá corrigir. São formas dominantes do país, de acordo com a nossa sensibilidade, ritmo e modo de ser. Esses fatos e muitos outros formarão a nossa gramática, entendida ela como o registro dos fatos da língua de um povo. E não será admissível exigir que um povo de 130 milhões, em franca explosão demográfica, se sujeite às normas tradicionais de outro povo, por maiores que hajam sido os laços de subordinação por todo o modo lamentável.

A literatura já vinha, aliás, integrando, incorporando à escrita muitas formas que eram consideradas espúrias pelos gramáticos. Basta observarmos o que se passou no século XIX entre os maiores escritores para vermos a que ponto a diferenciação lingüística já operava. E não era uma prática inconsciente, como o prova, a pregação de José de Alencar, que sabia o que estava afirmando, senhor que era das teorias lingüísticas de seu tempo. E como o demonstra a reação lusa contra a escrita brasileira, exemplificada no caso comprovado de Raul Pompéia que teve o seu O Ateneu corrigido por mão criminosa, em Paris, para enquadrá-lo nas normas lusas tradicionais (veja-se a "Introdução" à minha edição do grande livro nas Obras do escritor em publicação pela editora Civilização Brasileira).

Com a coragem de sermos brasileiros, estamos agora na crescente comprovação e conscientização da libertação dos laços arcaizantes em nosso mundo novo. Tanto a literatura quanto a língua, ao lado de outras manifestações de nossa alma, como a música popular, evidenciam que somos uma civilização nova, com defeitos graves, porém com muitas qualidades, reflexos do que poderemos chamar o caráter brasileiro. Nossa literatura e nossa música popular são as maiores de toda a América. Nada devemos mais à Europa, no sentido de influência dominante. Não há dúvida que num mundo cada vez mais unido temos relações e recebemos contribuições válidas. Mas não somos dominados nem dependentes. Vivemos a nossa vida, que é peculiar e de características inconfundíveis traduzidas em nossas formas de vida, como a literatura, a música popular,a língua. Que são inconfundíveis. Que são fortes e originais.

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Afrânio Coutinho foi membro da ABL (Academia Brasileira de Letras), ocupando a cadeira número 33, de 17 de abril 1962 até a data de seu falecimento, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 05 de agosto de 2000, aos 89 anos de idade. Para mais informações sobre Afrânio Coutinho visite a página da ABL na internet:

http://www.academia.org.br/

Terça-feira, Maio 01, 2007

Língua Brasileira

Artigo de: Eni P. Orlandi

INTRODUÇÃO

A questão da língua que se fala, a necessidade de nomeá-la, é uma questão necessária e que se coloca impreterivelmente aos sujeitos de uma dada sociedade de uma dada nação. Porque a questão da língua que se fala toca os sujeitos em sua autonomia, em sua identidade, em sua autodeterminação. E assim é com a língua que falamos: falamos a língua portuguesa ou a língua brasileira? (1) Esta é uma questão que se coloca desde os princípios da colonização no Brasil, mas que adquire uma força e um sentido especiais ao longo do século XIX. Durante todo o tempo, naquele período, o imaginário da língua oscilou entre a autonomia e o legado de Portugal.

De um lado, o Visconde de Pedra Branca, Varnhagen, Paranhos da Silva e os românticos como Gonçalves Dias, José de Alencar alinhavam-se entre os que defendiam nossa autonomia propugnando por uma língua nossa, a língua brasileira. De outro, os gramáticos e eruditos consideravam que só podíamos falar uma língua, a língua portuguesa, sendo o resto apenas brasileirismos, tupinismos, escolhos ao lado da língua verdadeira. Temos assim, em termos de uma língua imaginária, uma língua padrão, apagando-se, silenciando-se o que era mais nosso e que não seguia os padrões: nossa língua brasileira.

Assim nos contam B. S. Mariani e T. C. de Souza (Organon 21, Questões de Lusofonia) que, em 1823, por ocasião da Assembléia Constituinte, tínhamos pelo menos três formações discursivas: a dos que propugnavam por uma língua brasileira, a dos que se alinhavam do lado de uma língua (padrão) portuguesa e a formação discursiva jurídica, que, professando a lei, decidia pela língua legitimada, a língua portuguesa. Embora no início do século XIX muito se tenha falado da língua brasileira, como a Constituição não foi votada, mas outorgada por D. Pedro, em 1823, decidiu-se que a língua que falamos é a língua portuguesa. E os efeitos desse jogo político, que nos acompanha desde a aurora do Brasil, nos faz oscilar sempre entre uma língua outorgada, legado de Portugal, intocável, e uma língua nossa, que falamos em nosso dia-a-dia, a língua brasileira.

É assim que distingo entre língua fluida (o brasileiro) e a língua imaginária (o português), cuja tensão não pára de produzir os seus efeitos. Assim é que, em 1826, o projeto apresentado ao parlamento brasileiro pelo deputado José Clemente propõe que os diplomas dos médicos seja redigido em “linguagem brasileira”. Em 1827 temos a aprovação de lei que estabelece que os professores deveriam ensinar a gramática da língua nacional. Nem português, nem brasileiro, estrategicamente, nomeamos de língua nacional. Em 1870, procurando argumentar sobre a língua que falamos, temos a polêmica entre o romancista brasileiro José de Alencar e o português Pinheiro Chagas, um falando de nossas diferenças e autonomia, o outro, sobre o legado que recebemos de Portugal, a língua portuguesa. Essas referências podem ser encontradas em um quadro apresentado no início do livro História da semântica (2004) de Eduardo Guimarães, entre outros.

Já no século XX, na década de 1930 há uma discussão na Câmara do Distrito Federal sobre o nome da língua do Brasil: língua portuguesa ou brasileira? Novamente se decide pelo indefinido: falamos a língua nacional. Sobre essa discussão pode-se consultar o livro (tese) de Luis Francisco Dias (1996), que conclui que, na perspectiva daqueles que se posicionaram contrários aos projetos de mudança do nome da língua falada no Brasil, o nome língua brasileira é percebido como algo que viria desestabilizar um eixo social que tem nos percursos da escrita, sob os auspícios da língua portuguesa, o seu suporte, a sua referência, e, na perspectiva daqueles que defendem os projetos de mudança do nome de nosso idioma, língua brasileira tem a sua referência constituída a partir de uma imagem romântica do país, imagem fundada no positivismo e no ufanismo que, ao longo da segunda metade do século XIX e da primeira metade do século XX marcaram nossa história.

Finalmente, assim como D. Pedro outorgou uma Constituição em 1823, também em 1946, a comissão encarregada pelo governo brasileiro, em atendimento ao estabelecido pela Constituição de 1946, decide que o nome da língua falada no Brasil é língua portuguesa (2). Esta questão, no entanto, não deixa de nos importunar, e há sempre alguma razão, um pretexto, ou alguém que a levanta em momentos diferentes de nossa história. Isso quer dizer que até hoje não decidimos se falamos português ou brasileiro. Embora a cultura escolar se queira, muitas vezes, esclarecedora em sua racionalidade e moderna em sua abertura, acaba sempre se curvando à legitimidade da língua portuguesa que herdamos e, segundo dizem, adaptamos às nossas conveniências, mas que permanece em sua forma dominante inalterada, intocada: a língua portuguesa. E quem não a fala, ainda que esteja no Brasil, que seja brasileiro, erra, é um mal falante, um marginal da língua. É, pois, impressionante como a ideologia da língua pura, a verdadeira, faz manter o imaginário da língua portuguesa.

A QUESTÃO DE FATO

No entanto, podemos ver isto mais de perto e tomamos como medida a língua que falamos em seu aspecto histórico, social, cultural. Desde o princípio da colonização, instala-se um acontecimento lingüístico de grande importância no Brasil: o que constitui a língua brasileira. Ao mesmo tempo em que aqui desembarca, a língua portuguesa, ao deslocar-se de Portugal para o país nascente – o Brasil – institui um movimento de memória, deslizamentos lingüísticos por meio dos quais uma outra língua – a brasileira – faz-se presente.

O novo espaço de comunicação resiste com sua materialidade à língua que chega com os portugueses em sua memória já falada, já dita. Desdobram-se, transmudam-se os modos de dizer. A relação palavra/coisa faz ruído, relação não coincidente entre si e nem perfeitamente ajustada. Outras formas vão estabelecer-se fazendo intervir, e ao mesmo tempo constituindo, a memória local.

Retomo aqui os movimentos da enunciação que já tive a oportunidade de expor (1998): em um primeiro momento – situação enunciativa I – a partir de sua memória, o colonizador português reconhece as coisas, os seres, os acontecimentos e os nomeia. Mas ele o faz, transportando elementos de sua memória lingüística. Há um investimento na relação palavra/coisa, a questão incidindo sobre o referente: na presença de um nome, estamos diante da mesma coisa (a do Brasil e a de Portugal)? Como estamos no Brasil, há um deslocamento (transporte) que força contornos enunciativos diferenciados. Essa diferença se torna cada vez mais uma diferença de línguas (relação palavra/palavra, e não da palavra com a coisa). Daí resulta todo um trabalho sobre a língua, de classificação, organização, definições em listas de palavras, dicionários. O português, assim transportado, acaba por estabelecer em seu próprio sítio de enunciação outra relação palavra/coisa, cuja ambivalência pode ser lida nas remissões: no Brasil, em Portugal.

Tem início, então, a produção de um espaço de interpretação com deslizamentos, efeitos metafóricos que historicizam a língua. Produzem-se transferências, deslizamentos de memória, metáforas, pois estamos diante de materialidades discursivas que produzem efeitos de sentidos diferentes. Configura-se uma nova situação enunciativa – situação enunciativa II. As palavras, estas, já recobrem outra realidade. A língua praticada nesse outro regime enunciativo realiza, deste lado do Atlântico, a relação unidade/variedade: a unidade já não refere o português do Brasil ao de Portugal, mas à unidade e às variedades existentes no Brasil. E a unidade do português do Brasil, referido a seu funcionamento historicamente determinado, é marca de sua singularidade. Há um giro no regime de universalidade da língua portuguesa que passa a ter sua própria referência no Brasil. A variação não tem como referência Portugal, mas a diversidade concreta produzida no Brasil, na convivência de povos de línguas diferentes (línguas indígenas, africanas, de imigração etc).

Nessa perspectiva, então, falamos decididamente a língua brasileira, pois é isto que atesta a materialidade lingüístico-histórica. Se, empiricamente, podemos dizer que as diferenças são algumas, de sotaque, de contornos sintáticos, de uma lista lexical, no entanto, do ponto de vista discursivo, no modo como a língua se historiciza, as diferenças são incomensuráveis: falamos diferente, produzimos diferentes discursividades.

HETEROGENEIDADE LINGÜÍSTICA

J. Authier (1987) estabelece o conceito de heterogeneidade enunciativa para descrever o fato de linguagem que consiste em que todo dizer tem necessariamente em si a presença do outro.Aproveito o impulso desse conceito, embora ele ganhe em nosso uso outras determinações, para falar em heterogeneidade lingüística toda vez que, no campo dos países colonizados, temos línguas como o português, ou o espanhol, na América Latina, que funcionam em uma identidade que chamaria dupla. Estamos diante de línguas que são consideradas as mesmas – as que se falam na América Latina e na Europa – porém que se marcam por se historicizarem de maneiras totalmente distintas em suas relações com a história de formação dos países. É o caso do português do Brasil e o de Portugal. Falamos a “mesma” língua, mas falamos diferente.

Consideramos, pois, a heterogeneidade lingüística no sentido de que joga em nossa língua um fundo falso em que o “mesmo” abriga, no entanto, um “outro”, um diferente histórico que o constitui ainda que na aparência do “mesmo”: o português brasileiro e o português português se recobrem como se fossem a mesma língua mas não são. Produzem discursos distintos, significam diferentemente. Discursivamente é possível se vislumbrar esse jogo, pelo qual no mesmo lugar há uma presença dupla, de pelo menos dois discursos distintos, efeitos de uma clivagem de duas histórias na relação com a língua portuguesa: a de Portugal e a do Brasil.

Ao falarmos o português, nós, brasileiros, estamos sempre nesse ponto de disjunção obrigada: nossa língua significa em uma filiação de memória heterogênea. Essas línguas, o português e o brasileiro, filiam-se a discursividades distintas. O efeito de homogeneidade é o efeito produzido pela história da colonização. Quando, mais acima, falei da disjunção obrigada referia-me a uma certa indistinção, mas também à polissemia. Há uma composição de sentidos em nossa memória lingüística que funcionam, simultaneamente, em movimentos simbólicos distintos, quando falamos a língua brasileira. Isto significa que há uma marca de distinção na materialidade histórica desses sistemas simbólicos que carrega a língua brasileira dessa composição de sentidos. Eis a duplicidade, a heterogeneidade, a polissemia no próprio exercício da língua: o português e o brasileiro não têm o mesmo sentido. São línguas materialmente diferentes.

Dados esse fatos, a história da identidade da língua nacional se alongará por meio de acontecimentos múltiplos, como acordos, fundação de academias, regulamentos escolares, constituintes e outros. É essa história que começamos a conhecer, e este artigo é apenas um pequeno passo em direção a esta forma de conhecimento que é também uma tomada de posição face ao conhecimento da língua e da constituição da língua nacional no Brasil. Considerações acerca da língua materna, do idioma pátrio, da língua nacional são outras tantas que nos levam a novas reflexões igualmente esclarecedoras a respeito da língua nacional que falamos no Brasil e do modo como a nomeamos.

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Eni P. Orlandi é professora titular de análise de discurso do Departamento de Lingüística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL); coordenadora do Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb) da Unicamp; e pesquisadora 1A do CNPq.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1. Estes aspectos estão mais desenvolvidos em Orlandi (2002).
2. Uma análise do texto do parecer da comissão encarregada de decidir sobre o nome da língua está em Guimarães (2000).

BIBLIOGRAFIA CITADA:

Auroux, S,Orlandi, E. e Mazière F. - Lhyperlangue Brésilienne, in Langages, 130, Paris, Larousse. 1998.

Authier, J. - Hétérogénéités Énonciatives in Langages, Paris, Larousse. 1987.

Dias, L. F. - Os Sentidos do Idioma Nacional, Campinas, Pontes. 1996.

Guimarães,E. Línguas de civilização e línguas de cultura. A língua nacional do Brasil. In Barros, D.L.P. - Os Discursos do Descobrimento. São Paulo, Edusp/Fapesp. 2000.

Guimarães, E.R.J. - História da Semântica, Campinas, Pontes. 2003.

Mariani, B. e Souza, T. C.C. de - Questões de Lusofonia, Organon, 21, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) 2000.

Orlandi, E. P. - Língua e Conhecimento Lingüístico. São Paulo, Cortez. 2002.

Sexta-feira, Abril 13, 2007

Portugal e Brasil: Países Irmãos?

Todos já ouvimos alguma vez na vida frases feitas do tipo "Portugal e Brasil são países irmãos", pois bem, é hora de por os pingos nos is e acabar de uma vez por todas com esse tipo de afirmação ignorante.

Nos últimos anos uma pequena parcela, insignificante em termos de números, de brasileiros aparentemente acreditando na tal estória de irmandade entre os dois países resolveu tentar uma nova vida em Portugal. Estes brasileiros, e não só, foram e são vítimas diárias de preconceito, racismo e xenofobia dos nossos "irmãos" portugueses.


"Brazileiros (sic) fora de Portugal!!! Portugal não é Brazil (sic)!!!!" Uma das muitas demonstrações de carinho lusitano para com a comunidade brasileira estampada em uma das praças de Lisboa.

O trecho a seguir é de um depoimento da brasileira Carla Lima que se mudou com a família para Portugal aos 14 anos de idade e conheceu de perto o tratamento dado aos brasileiros pelos nossos "irmãos" portugueses:

"...Gente, eu com com 14 anos, uma criança ainda, tive obrigatoriamente que ir para a escola (em Portugal). Nossa, posso dizer que me senti uma extraterrestre, acreditam? Cara, olhavam para mim como se eu viesse de outro planeta e faziam perguntas tão ignorantes do tipo:

- Vocês comem feijão todos os dias?
- É verdade que lá (no Brasil) não se trabalha?
- És brasileira, sabes sambar?
- Ah, fala lá brasileiro, acho tão engraçado!!

Inúmeras perguntas em que eu realmente pensava: "Não acredito que estão me perguntando isso".

Enfim, sofri muito ao ponto de uma professora (portuguesa) virar prá mim e dizer: "Estas em Portugal fales e escrevas em português (de Portugal)". Cara, eu tinha acabado de chegar escrevi e sempre falei, durante 14 anos, minha língua e de um dia para o outro a professora queria que eu escrevesse da forma portuguesa? Ela chegou a me perguntar no meio da aula várias vezes: - "O que vieram aqui fazer? - "Na tua terra tá mal é?". Isso vindo, imaginem vocês, de uma professora..."


Este é um depoimento leve, comparado as centenas, dos que podem ser lidos no Orkut de brasileiros vítimas do preconceito, racismo e xenofobia lusitano.


Outdoor de um partido fascista português (PNR) colocado em umas das praças mais movimentadas de Lisboa pedindo a expulsão dos imigrantes (Portugal Aos Portugueses) e, vejam vocês, com autorização da Justiça Portuguesa.

É bom nunca se esquecer que os portugueses votaram em peso, recentemente, no ditador fascista António de Oliveira Salazar como o "maior português de todos os tempos" em um concurso exibido no canal RTP (Rádio e Televisão de Portugal). Demonstrando claramente que racismo, preconceito e xenofobia entre os portugueses não são casos isolados, mas sim, um retrato do que foi, é e sempre será uma das características inatas da personalidade do povo português.

Após tudo isso, se você é ainda daqueles que chamam os portugueses de "irmãos", é melhor pensar duas vezes em quem você está colocando dentro da sua família.

Terça-feira, Março 27, 2007

Ditador Fascista é o Maior Português de Todos os Tempos

A população portuguesa escolheu domingo passado, com 41% dos votos, o ditador fascista António de Oliveira Salazar como o maior português de todos os tempos em um programa exibido no canal público RTP (Rádio e Televisão de Portugal).

Essa notícia pode parecer fora de contexto neste blog, porém, não o é. A eleição de um ditador fascista como figura máxima portuguesa, em mais de 850 anos de história de Portugal, atesta perante o mundo quem são e como pensam a maioria dos portugueses e conseqüentemente quem são os lusitanistas do Brasil que lutam contra a língua brasileira.

Sábado, Dezembro 09, 2006

A Língua Brasileira no Mundo

É cada vez mais comum o uso do termo "brasileiro" para se referir ao nome do nosso idioma no mundo, quer seja em softwares, cursos lecionados em países estrangeiros ou mesmo em livros e dicionários como o exemplo exibido ao lado do Dizionario Italiano - Brasiliano (Dicionário Italiano - Brasileiro) da autora Antonella Annovazzi Vallardi.

Então porque no Brasil as pessoas insistem em chamar de "português" a nossa língua brasileira? Infelizmente no Brasil os lingüistas são, em sua maioria, lusitanistas que preferem ver a língua de 190 milhões de brasileiros submissa a lingua de 10 milhões de portugueses ao invés de exaltar nossa originalidade e independência vocabular e gráfica.

Porém, eu noto uma mudança da maré e cada vez mais aparecem pessoas corajosas para bradar o grito do Ipiranga da língua brasileira contra os lusitanistas doutrinados, em algumas universidades brasileiras, a desvalorizar tudo o que é brasileiro e aceitar que falamos uma língua "errada", um simples dialeto, acreditando que a língua "correta" é a de Portugal.

Antonella Annovazzi Vallardi escreveu também o livro Parlo Brasiliano - Manuale di Conversazione (Falo Brasileiro - Manual de Conversação). Ora, se um estrangeiro tem a coragem de dizer que fala brasileiro porque nós brasileiros também não teriamos?


Se você leu alguns dos artigos presentes neste blog deve ter percebido que em muitos países do mundo, com diferenças fonéticas e gramaticais muito menores na língua do que as existentes entre Brasil e Portugal, conseguiram sua independência política na língua. Acreditem, só depende da nossa vontade e de termos representantes da nossa causa na Câmara dos Deputados e no Senado para mudarmos de uma vez por todas o termo "português brasileiro" para apenas "brasileiro".

Desejo a todos os defensores da língua brasileira votos de boas festas e um feliz e próspero 2007. E digam sempre a plenos pulmões, cheios de orgulho, a quem quiser e principalmente aos que não quiserem ouvir: EU FALO BRASILEIRO!

Sábado, Abril 15, 2006

No Idioma, Um Novo Grito do Ipiranga

Artigo do filólogo Onofre Miranda publicado no jornal A Notícia (Caderno Anexo) de Joinville (SC) em 23/01/2000.

Ao contrário do que vem sendo apregoado, a reforma ortográfica deveria independer de Portugal e facilitar a escrita e a leitura.

O idioma é reflexo do caráter de uma nação na expressão de seu pensamento, sua arte e sentimentos. Nasce da sintonia mental de cada povo e suas idiossincrasias. Nação é um conjunto de pessoas que participam da mesma etnia (nem sempre), habitam o mesmo território (podendo não fazê-lo, como os judeus) e que têm entre si afinidade de costumes, tradições e lembranças. O Brasil é um mosaico étnico e cultural. Há padrões oficiais de fala e escrita, mas a linguagem de fato não é a mesma. Há uma enorme riqueza em regionalismos, que os meios de comunicação se empenham em achatar. Se existem diferenças internas, é de esperá-las maiores entre países separados por oceanos imensos, cujos povos só se conhecem uns aos outros por relances de informação volátil.

Minha opinião é de que o acordo ortográfico da língua portuguesa será uma prótese inútil, inoportuna e, na prática, inviável. As tentativas anteriores (1911, 1943, 1945, 1955) estão na cesta de lixo do esquecimento. Opõem barreiras a essa iniciativa o fato de ser uma atitude imposta de cima para baixo e de fora para dentro, por vontade momentânea de minorias, e o de faltarem liames com as outras nações envolvidas, exceto a fração portuguesa na genética, o nome da língua e o do planeta. Soa como manobra lusitana de mercadologia. A não ser o incômodo que causará mais uma reforma, não vai influir em coisa alguma. Não vai ajudar a unir os povos, a promover seus interesses em bloco ou aumentar o intercâmbio cultural, pela apatia que os caracteriza, pela distância geográfica e por diferenças culturais e sociais. Se uma aproximação é pretendida, não é esse o ângulo de abordagem. Deveríamos aproximarmo-nos de nossos próprios concidadãos, nossos povos indígenas e dos vizinhos geográficos, não dos lingüísticos.

Não obstante o sincero empenho do falecido Antônio Houaiss (ABL), e as opiniões favoráveis de Luis Fernando Veríssimo (humorista), José Aparecido (político), Cunha de Ladeirella (escritor luso-brasileiro), Fábio Lucas (Associação Nacional dos Escritores) e tantos outros, acolho a de meu conterrâneo Deonísio da Silva: "Vemos uma submissão à padronização que a informática está requerendo e o acordo ortográfico não deveria se guiar por ela. Acho que não escrevo na língua de José Saramago. Há muitas palavras diferentes. Entendo um português na mesma proporção que entendo um uruguaio". É de Monteiro Lobato a seguinte opinião: "A base do intercâmbio cultural entre os povos é uma só: absoluta liberdade de expressão do pensamento, de modo que um povo possa conhecer o que o outro pensa. Em caso contrário, os povos só ficam sabendo o que, por motivos compulsórios, os outros povos fingem pensar. Ocorre portanto um intercâmbio de mentiras - e a mentira jamais construiu coisa nenhuma" (Prefácios e Entrevistas, ed. 1946, pág. 193).

Tenho outras críticas ao acordo e à reforma. É injustificável a reinclusão dos caracteres "k", "w" e "y". Eles sempre existiram em nosso alfabeto, mas apenas para a escrita de nomes estrangeiros. E são ridículos nas línguas indígenas, que nem tinham escrita. Se quisermos agradar a todos (mania de brasileiro), por quê não incluir também os caracteres árabes, chineses, cirílicos, coreanos, gregos, japoneses e russos? Aí teríamos mais um título: o maior (e mais tolo) dos alfabetos.

Minha experiência como professor, pai, pesquisador e escritor mostrou que nossa língua poderia ser mais fácil. Nela os sons não se alteram tanto como em outros idiomas. Mas teima em manter a escrita apegada à etimologia greco-latina e bárbara, conhecimento não ao alcance de todos. Os casos de dubiedade podem ser resolvidos com mudanças simples. Embora não sejam tantas, afetarão um montante enorme de palavras, proporcional à diminuição do número de dúvidas e de regras a seguir. A linha mestra da proposta que faço é a fixidez da escrita em relação à pronúncia. A forma atual é problemática, em especial na tarefa de alfabetização.

FALA E ESCRITA

Uma reforma ortográfica em si não me diz coisa alguma. Seu conteúdo é o que importa. A maneira como nossas autoridades e a Academia Brasileira de Letras vêm conduzindo a questão está longe de agradar. Há um vínculo forçado, por meio do acordo ortográfico, com os demais países ditos lusófonos. Eu diria que somos lusógrafos. O falar brasileiro é diferente do lusitano. A semelhança é maior na escrita que na fonética.

Uma reforma ortográfica deveria servir para facilitar a escrita e a leitura, facilitar o entendimento e eliminar ambiguidades, no âmbito nacional. Todas as reformas anteriores terminaram por embaraçar e aumentar as dúvidas. Tornaram-se um mero tira-e-põe de acentos e sinais diacríticos. Ainda hoje são válidas as normas de 1.943.

Dizem brasileiros e estrangeiros que nossa língua é de difícil aprendizado e de uso complicado. Não conheço uma só pessoa que não tenha muitas dúvidas. Mas não é o único idioma que tem problemas. O idioma alemão tem pronúncia difícil, mas há regras fixas e conhecidas. Seus maiores problemas estão no ajuntamento de frases inteiras em uma só palavra e na pronúncia de certas consoantes e seus encontros. São comuns encontros de três ou mais consoantes. Essa dificuldade é ainda maior nas línguas nórdicas e eslavas. Nelas parece haver excesso de consoantes e faltarem vogais. O francês apresenta alguma dificuldade no aprendizado inicial, mas pode ser vencida em poucos dias.

Quanto à língua inglesa, falem os ingleses: "A pronunciação da língua inglesa é errática e ridícula, mas é sua única dificuldade; não fosse isto, seria a língua mais fácil do mundo. Os ingleses escrevem Southampton, mas pronunciam Liverpool, que significa Bristol e no fim vão para Londres" (H. S. Wreford-Glanvill, inglês e professor do idioma no Brasil, "Times of Brazil English Course", pág. 14, 8ª ed., 1.957). Confirmam-no os sons possíveis da letra "o" em: revolver (revólver), ghost (gôust), come (câm), cloud (cláud), whose (rúz), women (uímen), etc.

A PROPOSTA PARA UMA LÍNGUA BRASILEIRA

A língua falada no Brasil já o tem sido há tempo suficiente para adquirir autonomia. Por vias nem sempre diretas ou exclusivas, do latim derivou o castelhano, o português, e deste deve sair o brasileiro. Nossa versão da língua portuguesa deveria chamar-se língua brasileira.
É delicado para o mestre e complicado para o aluno, em especial o alfabetizando, o fato de a mesma letra "c" ter sons diferentes em cego e casa, e "g" em galo e gelo. Explicar ou entender por que acima é com "c" e assina é com "ss", viagem (substantivo) e viajem (verbo) é, às vezes, inútil. O "x" tem sons diversos; escrevemos pretexto, exame, axial, exceto e próximo, e lemos pretesto, ezame, aqcial, eceto e prócimo. Chega a ser hipocrisia!

Algumas confusões têm permanecido por séculos: vasar (atravessar, furar) e vazar (escorrer, transbordar). É possível eliminar como o "ç", bastaria o "c"; o "ch" deveria ser substituído pelo "x", sempre chiado; ao invés do "gu" ou "qu", antes de "i" ou "e", bastaria o "g" ou "q", somente gutural, salvo quando o "u" for pronunciado; o "h" inicial é supérfluo, em lugar do "s" inicial, ou antes de vogais, poderíamos usar "c" ou "z", e em lugar do "ss", o "c". As palavras deveriam ser escritas sempre como se pronunciam. As letras não pronunciadas devem ser eliminadas, como em "nascer".

Proponho uma nova classificação das línguas. Encabeçando a chave, teríamos, como antes, as línguas mortas e línguas vivas. Para as línguas mortas prevaleceria o conceito universal. As línguas vivas seriam divididas em línguas nacionais, afins e estrangeiras:
  • Línguas nacionais - língua brasileira e línguas brasilíndias.
  • Línguas brasileiras - Conceito: língua neo-latina derivada da portuguesa, falada no Brasil, englobando todas as suas variantes regionais, consideradas sob todos os aspectos como uma só língua.
  • Línguas brasilíndias - Conceito: toda e qualquer das 170 línguas aborígenes faladas pelos povos indígenas sobreviventes do Brasil (as extintas estariam entre as línguas mortas).
  • Línguas afins - Conceito: línguas que tenham, com a brasileira, parentesco língüístico próximo, afinidade histórica e ampla semelhança; são elas a portuguesa e espanhola.
  • Línguas estrangeiras - Todas as demais (há ainda as línguas artificiais: o esperanto e o volapuque).
P. S. - No decorrer desta semana fiz consultas à Academia Brasileira de Letras e fui informado de que nela há ferrenhos opositores ao Acordo. O acadêmico Afrânio Coutinho diz que nossa língua é brasileira, e não portuguesa, e tem publicado diversos trabalhos a respeito. Outra simpatizante da idéia é Rachel de Queiroz, primeira mulher a ingressar na gloriosa. Os termos do acordo ficaram estabelecidos em 16 de dezembro de 1990, na Academia de Letras de Lisboa. O representante do Brasil foi o político e diplomata José Aparecido de Oliveira. Em 18 de abril de 1995, o Congresso Nacional (nosso) aprovou a reforma ortográfica, pelo decreto-lei nº 54/95, assinado pelo presidente do Senado, sr. (e imortal) José Ribamar Ferreira de Araújo Costa (vulgo José Sarney). Este decreto, para entrar em vigor, precisa da sanção dos presidentes do Brasil e de Portugal, o que ainda não ocorreu. O presidente do Brasil, à época, era o mesmo que hoje temos (Fernando Henrique Cardoso). Penso que ele fez muito bem em não sancioná-lo, e agirá melhor ainda não o fazendo jamais. Mas há rumores de que ambos pretendem encontrar-se, pelas comemorações do 5º Centenário do Descobrimento e, a quatro mãos (ou pés), consagrar o disparate. Não se sabe se no Brasil ou na metrópole. Caso venham a fazê-lo, sugiro um terceiro ponto de encontro, em local neutro. A meio-caminho, no fundo do Atlântico.

Quinta-feira, Março 30, 2006

O Idioma do Brasil é Brasileiro

Artigo do jornalista e escritor: Eduardo Fonseca

No Brasil fala-se um idioma que só se fala no Brasil e em nenhum lugar mais. Aliás, somos a única ex-colônia portuguesa que não fala com sotaque português. E isto deve-se, entre outras razões, à influência da língua tupi ou seja, o nheengatú — ou, como querem alguns, ao "nhen, nhen, nhen".

No Brasil dos paradoxos, acontecem coisas que a mais fértil imaginação não teria condição de acreditar. O "retrato da identidade nacional" é composto por um branco, um índio e um negro e, obviamente, falamos um idioma formado por palavras oriundas destas três fontes lingüísticas. No entanto, temos a coragem de dizer que "no Brasil, fala-se o português". Ledo engano.

Esta espinha dorsal lingüística brasileira está um tanto desbotada diante de tantas "lavagens culturais" à que foi submetida ultimamente pelos estrangeirismos que empesteiam o nosso idioma.

A língua portuguesa original trazida para o Brasil continha 140 mil verbetes ou palavras. O português, esta "língua de marinheiro", contém hoje 260 mil verbetes, fato que o torna a mais rica língua em sinonímica do mundo. Os 120 mil verbetes excedentes em nosso idioma falado, ficam por conta das culturas africanas e tupi-guarani.

Portanto, a tão alardeada "unificação ortográfica e gramatical" torna-se impossível a partir da própria conseqüência lingüística que este idioma adquiriu no Brasil.

Isto porque, o significado de milhares de palavras oriundas da língua tupi e falados diariamente, são completamente desconhecidos por todos indistintamente. Isto sem mencionarmos obviamente, a contribuição lingüística africana.

As três línguas que formam o idioma brasílico têm um sentido e uma objetividade declaradamente importante:

"O africano nos deu verbetes com os quais nos expressamos na forma espiritual, culinária, lazer, gíria e glotologias — Ex: Moleque, Cachimbo, Bugiganga, Caçula, Xodó, Bizú, Gogó, Tijolo, Zureta, Muvuca, Mumunha, Maluco, Garfo e por aí vai aos milhares também."

O Tupi nos deu verbetes que nos permitem ir e vir no real sentido locativo e toponímico. O Português nos deu verbetes que nos fornecem condições jurídicas, políticas e didáticas. Ficaria impossível a um brasileiro fazer tudo que faz diariamente usando apenas o recurso da língua portuguesa. Daí que....

É IMPOSSÍVEL UMA UNIFICAÇÃO ORTOGRÁFICA COM OS DEMAIS PAÍSES DE "LÍNGUA PORTUGUESA"!

Corrigir a injustiça histórica secular para com a cultura ameríndia brasílica, origem da formação nacional e espírito latente de insubmissão à dominação estrangeira, deve ser o objetivo de todos aqueles que lidam com a Educação e Cultura deste país e que tenham um pouco de amor ao verde e amarelo.

Devemos propiciar aos milhões de brasileiros que diariamente expressam-se na língua tupi, a oportunidade de saberem o significado dessas palavras e, sabendo-o, terem condições de conhecer a história da grande nação Tupi, fato que gerará o inevitável espírito nacionalista e a responsabilidade em sua preservação.

A conseqüência imediata desta providência será a expansão para além das nossas fronteiras da verdadeira epopéia da estruturação brasileira, permitindo ainda que as demais nações, por intermédio dos milhares de turistas que pisam o território nacional, saibam, em seu próprio idioma, o significado dos nomes e palavras tão comuns nos logradouros públicos, locais e cidades mundialmente famosas, e, cujos nomes em língua Tupi, até a presente data, não têm tradução literal e significação, uma vez que os próprios brasileiros não o sabem.

E apenas para informação, longe de ser alguma língua morta e sem origem, o tupi ou nhengatú possui uma gramática expositiva dividida em quatro partes exatamente como a língua portuguesa: Fonologia — Morfologia — Taxinomia e Sintaxe.

Estamos diante, portanto, de uma prova que os milhares de nomes toponímicos que descrevem e definem lugares, cidades, praças, ruas, produtos, objetos ou fenômenos da terra, não foram jogados ao vento "por um caboclo brejeiro qualquer" como quer a explicação até hoje passada nas escolas do país, mas sim, fazem parte do aspecto topográfico local, traduzido pelo idioma brasílico, genuíno irmão lingüístico do português.

Se observarmos apenas algumas das palavras que falamos diariamente, já teremos uma pequena idéia da nossa ignorância e a conseqüente responsabilidade para com o futuro:

Jacarepaguá: lagoa dos jacarés
Andaraí: rio dos morcegos
Aracaju: cajueiro das araras
Tijuca: brejo, lamaçal
Pará: mar
Maracujá: comida preparada em cuia
Paraná: rio que é grande como o mar
Paraguai: rio dos papagaios
Pirapora: peixe que salta
Pindorama: país das palmeiras
Bauru: cesto de frutas
Sergipe: rio dos siris
Pindamonhangaba: fábrica de anzóis
Goiás: gente da mesma raça
Sorocaba: terra rasgada
Curitiba: lugar de muito pinhão
Morumbi: mosca verde, varejeira
Pacaembu: riacho das pacas
Ceará: o canto da jandaia
Carioca: casa de branco
Anhangabaú: rio dos malefícios do diabo
Ipanema: rio sem peixe
Uberaba: água clara, cristalina
Pindaíba: vara de pescar

Estas são apenas algumas das milhares de palavras do idioma tupi faladas e escritas diariamente e que, identificando locais e cidades nacional e internacionalmente conhecidas, fazem parte do nosso vocabulário diário, porém as suas traduções ou significados são desconhecidos por todos.

Os padres jesuítas José de Anchieta e Nóbrega dedicaram suas vidas aos estudos e codificação da língua tupi-guarani, seus usos, costumes, história e origem antropológica desta grande nação cujo sangue corre em nossas veias, direta ou indiretamente.

Centenas de outros jesuítas sucederam aos pioneiros na continuidade deste trabalho, legando-nos verdadeiros tratados acerca de tal assunto, vez que, já àquela época, previam a necessidade das futuras gerações acerca do conhecimento da língua brasílica que faria parte da nossa existência como nação.

Mas a leviandade, o preconceito e o racismo de alguns "intelectualóides de beira de jardim" que se revezaram durante anos no controle da educação e cultura, desprezaria por completo o trabalho destes jesuítas, preferindo dar cunho oficial aos anglicanismos, galicismos e estrangeirismos que corroem o nosso idioma e alteram o nosso comportamento.

De tal maneira desafiaram o conceito de nação que hoje, nas faculdades, ninguém sabe gramática portuguesa e muito menos gramática tupi-guarani. E só para exemplificar aí vai um texto que prova a importância da cultura indígena na nossa vida:

"Aí, o presidente Fernando Henrique Cardoso saiu do palácio às margens do Lago do Paranoá, observou uma Siriema que ciscava no palácio do Jaburu, chegou ao seu gabinete sendo recebido pelo mordomo Peri, lembrou a um assessor sobre as comemorações da Batalha do Humaitá, convocou o ministro do Itamaraty e o governador de Goiás, que visitava seu colega no palácio do Buriti, e, uma vez juntos, tomaram um suco de maracujá, comentaram sobre as reformas do estádio do Maracanã e as recentes obras no vale do Anhangabaú, riram de um antigo comentário do Barão de Itararé sobre obras públicas, e, abrindo uma agenda de pele de jacaré, passaram, a decidir sobre o carvão de Criciúma, os suínos de Chapecó e a safra de arroz de Unaí."

– Viram, falaram, beberam e escreveram em tupi e não se deram conta disto. O embaraço maior, seria se tivessem que traduzir todas estas palavras para o chanceler francês que visitava o Brasil.

E já que é assim, por que não inserir em todas as placas de ruas, praças, avenidas, estradas, rodovias, monumentos e locais cujos nomes sejam originalmente em língua tupi, o significado em português, o qual, via de regra, poderá ser traduzido para qualquer idioma estrangeiro ?

— E por que não explicar nas escolas primárias e secundárias esta fusão da língua portuguesa com a língua tupi-guarani e seus fenômenos toponímicos e gramaticais usados no cotidiano desde a tenra idade ?

— Achamos esta saída ideal para um problema que tem gerado situações embaraçosas para brasileiros no exterior, quando alguém pergunta o significado da palavra Ipanema ou, dentro do seu próprio país, quando um filho ou uma filha pergunta:

"... papai, o que quer dizer carioca?"

— Diante do desconhecimento total por parte dos brasileiros acerca desta cultura e herança, corremos os risco de permitir que as gerações futuras pensem que tais palavras, hábitos e costumes, fazem parte da cultura e língua portuguesa, porém, sem significado e explicação. É o máximo !

E, caso algum especialista em educação e cultura ache que é possível viver sem esta influência lingüística, poderá começar por retirar todas as palavras da língua tupi do nosso vocabulário. Inicialmente:
  • Terá que trocar o nome de dez estados e sete capitais brasileiras, cujos nomes são em tupi.
  • Depois trocar os nomes de centenas de municípios, milhões de ruas, praças, avenidas, estradas, rodovias e localidades topográficas cujos nomes também são originários da língua tupi.
  • E finalmente, terá que mudar milhares de nomes próprios e palavras comuns do nosso dia-a-dia, as quais são verbetes da língua tupi.
Aí verá que a comunicação e a locomoção se tornarão impossíveis.

E já que esta terra era propriedade de uma raça tão importante que mesmo dizimada nos legou um tratado lingüístico e antropológico de beleza impar, nada melhor do que repetir a célebre frase de Aimberê, o cacique-comandante da Confederação dos Tamoios no Rio de Janeiro:

"Nhandê coive ore retama!" — Esta terra, é nossa !

— E é, por esta razão que me considero um legítimo Tupinambá...porque no Brasil, TODO DIA, É DIA DE ÍNDIO!

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Nota: Segundo Eduardo de Almeida Navarro, professor do Departamento de Letras da USP e autor do livro "Método Moderno de Tupi Antigo" (Editora Global), existem mais de 10 mil tupinismos no nosso idioma e mais de 50 mil batismos geográficos no Brasil na língua tupi.

Segunda-feira, Março 27, 2006

Falamos a Língua de Cabral?

Artigo publicado na revista Super Interessante, edição de abril de 2000, página 46.

Se é que Cabral gritou alguma coisa quando avistou os contornos do Monte Pascoal, certamente não foi "terra ã vishta", assim com o "a" abafado e o "s" chiado que associamos ao sotaque português. No século XVI, os lusos não engoliam vogais nem chiavam nas consoantes - essas modas surgiram depois do século XVII, na Península Ibérica. Cabral teria berrado um "a" bem pronunciado e dito "vista" com o "s" sibilante igual ao dos paulistas de hoje. O hábito de engolir vogais, da maneira como o fazem os portugueses de hoje, consolidou-se na língua aos poucos, naturalmente. Na verdade, nós, brasileiros, mantivemos os sons que viraram arcaísmos empoeirados para os portugueses.

Só que, ao mesmo tempo, acrescentamos à língua mãe nossas próprias inovações. Demos a ela um ritmo roubado dos índios, introduzimos subversões à gramática herdadas dos escravos negros e temperamos com os sotaques de milhões de imigrantes europeus e asiáticos. Deu algo esquisito: um arcaísmo moderno.

O português brasileiro levou meio milênio se desenvolvendo longe de Portugal até ficar nitidamente diferente. Mas ainda é quase desconhecido. Até os anos 90, os lingüistas pouco sabiam sobre a história da língua, sobre nosso jeito de falar e as diferenças regionais dentro do Brasil. Agora, três projetos de pesquisa estão mudando isso:
  1. Gramática do português falado: será publicada em 2001, depois de ocupar 32 lingüistas de doze universidades durante dez anos. " Ao contrário do que se acredita, as pessoas falam com muito mais riqueza do que escrevem", diz à SUPER o professor Ataliba de Castilho, do departamento de Letras da Universidade de São Paulo, que coordena o projeto.
  2. A origem de cada estrutura gramatical: Ao estudar as particularidades da língua falada, os pesquisadores reuniram informações sobre a origem de cada estrutura gramatical. A partir desses dados, estão começando a primeira pesquisa completa sobre a história do português no Brasil. A intenção é identificar todas as influências que a língua sofreu deste lado do Atlântico. Só que essas influências são diferentes em cada parte do país. Daí a importância do terceiro projeto:
  3. O Atlas Lingüístico. "Até 2005, vamos mapear todos os dialetos da nação", prevê Suzana Cardoso, lingüista da Universidade Federal da Bahia e coordenadora da pesquisa, que abrangerá 250 localidades entre o Rio Grande do Sul e a Amazônia.
Os três projetos somados constituem, sem dúvida, o maior avanço para a compreensão da nossa língua desde que Cabral aportou por aqui.

ESTUDIOSOS APRENDEM COM A POESIA

Luís de Camões (1524-1580) foi o maior poeta da língua portuguesa. Mesmo assim, o escritor luso Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) achava seus versos péssimos. Há motivos para tal implicância. Um verso de Camões como "e se vires que pode merecer-te" que para um poeta brasileiro é um decassílabo perfeito — frase de dez sílabas poéticas —, soa mal no ouvido de um escritor luso moderno. "Os portugueses comem as vogais que precedem a sílaba tônica, a mais forte da palavra", explica o gramático Evanildo Bechara, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Assim, o verso vira "e se v'res que pode m'recer-te". Fica com só oito sílabas, estragando a métrica.

Poemas são o principal recurso de estudo da prosódia histórica, a área da Lingüística que estuda a evolução dos modos de falar. "Não é uma fonte perfeita, mas é a única", lamenta Gladys Massini Cagliari, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Infelizmente, naquele tempo não havia gravador". Graças aos versos, os pesquisadores sabem que Cabral, morto quatro anos antes de Camões nascer, dividia as sílabas como nós, brasileiros. Ou seja, o hábito de engolir vogais surgiu na Península Ibérica depois do século XVI e consolidou-se na língua aos poucos, naturalmente.

CALDEIRÃO DE POVOS

Mas, se há semelhanças entre a língua do Brasil de hoje e o português arcaico, há também muito mais diferenças. Boa parte delas é devida ao tráfico de escravos, que trouxe ao Brasil um número imenso de negros, que não falavam português. " Já no século XVI, a maioria da população da Bahia era africana", diz Rosa Virgínia Matos e Silva, lingüista da Universidade Federal da Bahia. "Toda essa gente aprendeu a língua de ouvido, sem escola", conta. Na ausência de educação formal, a mistura de idiomas torna-se comum e traços de um impregnam o outro. "Assim, os negros deixaram marcas definitivas", ressalta ela.

Também no século XVI, começaram a surgir diferenças regionais no português do Brasil. Num pólo estavam as áreas costeiras, onde os índios foram dizimados e os escravos africanos abundavam. No outro, o interior, onde havia sociedades indígenas. À mistura dessas influências vieram se somar as imigrações, que foram gerando diferentes sotaques. "Com certeza, o Brasil hoje comporta diversos dialetos, desde os regionais até os sociais, já que os ricos não falam como os pobres" afirma Gilvan Müller de Oliveira, da Universidade Federal de Santa Catarina.

Mas o grande momento de constituição de uma língua brasileira foi o século XVIII, quando se explorou ouro em Minas Gerais. "Lá surgiu a primeira célula do português brasileiro", diz Marlos de Barros Pessoa, da Universidade Federal de Pernambuco. "A riqueza atraiu gente de toda parte - portugueses, bandeirantes paulistas, escravos que saíam de moinhos de cana e nordestinos." Ali, a língua começou a se uniformizar e a exportar traços comuns para o Brasil inteiro pelas rotas comerciais que a exploração do ouro criou.

FALAS BRASILEIRO?

A lei da evolução, de Darwin, estabelece que duas populações de uma espécie, se isoladas geograficamente, separam-se em duas espécies. A regra vale para a Lingüística. "Está em gestação uma nova língua: "o brasileiro", afirma Ataliba de Castilho.

Há quem seja ainda mais assertivo. "Não tenho dúvida de que falamos brasileiro, e não português", diz Kanavillil Rajagopalan, especialista em Política Lingüística da Unicamp. "Digo mais: as diferenças entre o português e o brasileiro são maiores do que as existentes entre o hindi, um idioma indiano, e o hurdu, falado no Paquistão, duas línguas aceitas como distintas", Kanavillil nasceu na Índia e domina os dois idiomas (hindi e hurdu).

Sábado, Março 25, 2006

Latim, Neo-Inglês, Brasileiro

Artigo de: Clovis Luz da Silva

Gostaria de responder ao primeiro item das perguntas feitas por Caia Fittipaldi na edição de 4/12/2002 do Observatório da Imprensa. Não há, do ponto de vista da lingüística e da história, como estabelecer meios para a coerção do uso indiscriminado de expressões estrangeiras, mormente do idioma inglês na questão presente, quando há seus termos correspondentes em nosso idioma, para, por meio dessa "proteção", salvaguardar a democracia e a soberania de qualquer povo no mundo por conta de um discurso "nacional". Entendendo-se nacional como sinônimo de "todos falam a mesma língua’’.

Sob o aspecto lingüístico temos o verbo deletar como exemplo de como a semântica de uma palavra é superior à sua forma escrita, vindo a gerar outras formas devido à influência do idioma em que tal termo ocorre. O ilustre deputado Aldo Rebelo que quer, por força de lei, preservar o idioma português, foi motivado talvez pela ignorância pela falta de uma assessoria especializada em lingüística, que lhe pudesse explicar que muitos termos na língua inglesa e portuguesa têm origem comum, como é o caso de deletar, originada do latim delere, que significa apagar, destruir; daí em nossa língua o termo deletério, destrutivo, dentre outros.

HISTÓRIA E RAZÃO

A história prova que é impossível coibir o caráter invasivo de uma língua, cuja imposição, que não ocorre da noite para o dia, pode muito bem determinar o surgimento de uma outra, visto não haver mecanismos que preservem as línguas existentes – creio duvidoso tal possibilidade, a "proteção" compulsória de uma língua.

Não é de todo absurdo afirmar que o inglês, dentro de alguns séculos, pode determinar o surgimento de novos idiomas nos muitos países que hoje sofrem sua influência e onde hoje o inglês não é idioma oficial, mesmo que as línguas suprimidas contribuam com elementos para esse novo idioma tanto quanto o latim se mantém identificável nas línguas que originou.

Se culturalmente o latim está para o inglês assim como a dominação romana sobre os povos está, pela globalização, para a dominação dos EUA sobre muitos povos, é obvio concluir que o idioma do país dominante pode gerar transformações tão radicais a ponto de surgirem novas línguas nacionais, todas originadas naquele idioma.

Tal supremacia do inglês no mundo será realidade desde que os falantes das línguas que hoje sofrem sua influência passem a utilizar as variantes possíveis a partir de construções comunicativas apoiadas em termos e expressões da língua inglesa, configurando um processo de assimilação gradativa, culminado na "vitória" total do novo idioma.

E, no caso de isso ocorrer, a única maneira de se manter viva nossa língua da forma como hoje a conhecemos será através dos meios materiais de gravação que a tecnologia possibilitará; e os que falarão esse idioma novo certamente não sofrerão qualquer impacto, visto serem sujeitos no processo histórico de construção de sua língua, que será sua língua na medida em que ela for competente para produzir a comunicação necessária à convivência numa sociedade; tanto quanto somos nós os que hoje nos defrontamos dia-a-dia com a força cada vez mais avassaladora da língua inglesa, invasivamente para uns, naturalmente para outros. Peço desculpas aos antropólogos por tão chocante conclusão sobre a língua nacional.

Aliás, ela não é nacional porque todos os brasileiros falam a mesma língua? Então, nesse caso, seria melhor denominarmos nosso idioma de língua brasileira. O que quero dizer é que o fato de o inglês vir a influenciar os demais idiomas, originando outros, não extinguirá nenhuma nação do mundo. Não destruirá os povos nem sua soberania. Os povos continuarão sendo povos distintos, assim como distinto é o povo brasileiro do povo espanhol, do povo francês e do povo italiano, todos falantes de línguas neo-latinas, originadas no latim. Se viermos a falar um idioma neo-inglês deixaremos de ser brasileiros, deixaremos de ser uma nação democrática?

A história mostrará quem tinha razão nisso tudo.

Quarta-feira, Março 22, 2006

Dos Usos Políticos da Língua

Trecho do artigo "Só a Antropofagia Nos Une" de: Maria Cândida Ferreira de Almeida

"...Mais de 70 anos depois do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, os indicadores sociais ainda apontam para uma exclusão calcada na invisibilidade de parte desse grupo: “metade das crianças brasileiras são pobres; 63% dos pobres são negros, 60% dos jovens e adultos não completaram 8 anos de estudos”. A invisibilização dos negros e dos não-escolarizados é invertida ao tratarmos do uso da língua, contudo não foi resolvida “na larga noite dos 500 anos”.

A intelectualidade sul-americana começara, a partir das propostas românticas e mesmo com o realismo do século XIX, a tomar diferencialmente parte no “caldo cultural universal” que viria a marcar intensamente suas produções artísticas e políticas. Dentro de um cenário de construção de novos consensos identitários, a antropofagia sugeria uma inversão de grande impacto dos valores até então tidos como centrais, por exemplo, o bem-escrever. Angel Rama desenvolveu a concepção de “cidade letrada”, mostrando como o uso da língua participa dos aparelhos de dominação na América Latina, ao reforçar seu papel nas estratégias de exclusão empreendidas pelas classes dominantes.

A língua pública, como bem demonstra Rama, dominava tanto a literatura quanto a política, mesmo com as tentativas românticas de criar uma língua autóctone —brasileira ou “criolla”— a ruptura com os padrões da gramática da Real Academia Española ou com as normas do bem dizer de decálogos do estilo literário parnasiano do século XIX, ainda se fazia necessária. Faltava a expressão de uma parte da população que não tinha sua voz representada política e literariamente. Os movimentos de começo do século XX queriam romper com a norma culta dominante, mas também com seus padrões de exclusão. Nesse contexto, se mesclavam política e arte em um projeto nacional que começava propor a inclusão dos diferentes grupos sociais e étnicos que compõem a sociedade brasileira.

Oswald elaborou o seu manifesto no contexto de transformação do começo do século, quando as referências parnasianas eram hegemônicas em um país que começava a se industrializar. Em um contexto finissecular, chacoalhado pelas transformações propostas pelo marxismo e positivismo e pelos ideais libertários do século XIX, os intelectuais locais como maior espaço nos aparelhos ideológicos da época, buscavam (e alguns ainda buscam) seu brilho na apropriação de conceito e categorias européias consagradas como “universais”. O modelo de civilização proposto pela Europa Ocidental havia expandido suas conquistas desde o século XVI, acachapando as resistências, impondo sua representação de “mundo melhor”, espalhando o que considerava “civilização” e formando elites locais que reproduziam servilmente o modelo.

No Brasil, o apreço a esse modelo era ecoado por intelectuais que tinham grande repercussão junto ao público como Rui Barbosa e João Ribeiro que buscavam apagar os vestígios do Romantismo criando um movimento que eles chamaram de “vernaculizante”. Para esse políticos da língua, Barbosa e Ribeiro, os escritores pertencentes ao movimento Romântico, na tentativa de criar uma língua própria, reagindo contra a linguagem clássica utilizada por aqueles dos centros culturais da metrópole colonial, “passaram a escrever mal o idioma que herdamos” (Ribeiro,1958:29). Rui Barbosa passou a liderar um movimento pela “reabilitação dos clássicos” que contaminou até o debate em torno da redação do Código Civil Brasileiro; acompanhado de João Ribeiro acreditava que o “Brasil estava mais perto dos antigos do que dos portugueses. Não havia razão, portanto, para repudiarmos uma tradição [dos clássicos] que era mais nossa que de Portugal” (Ribeiro,1958:30). Ambos os ativistas vão argumentar sua teoria baseado nos estudos da linguagem, propondo que a “evolução dos idiomas românicos na América é mais lenta e retardada que na Europa” e que uma “arcaicidade” caracterizaria a “linguagem falada na América” (Ribeiro,1958:31). Tais estudos justificariam um retorno a fala quinhentista de Luís de Camões, eterno modelo do clássico em língua portuguesa; no “movimento vernaculista”, se integravam “no ideal da boa linguagem” os escritores de maior projeção do final do século XIX e começo do XX: Machado de Assis, Coelho Neto, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia, Olavo Bilac, concorriam, através da recém-criada Academia Brasileira de Letras (15/11/1896), para o aprimoramento do idioma assentado sobre sua pretensa pureza.

Contrapondo-se a essa perspectiva, o Manifesto Antropófago (1928) de Oswald de Andrade lançava um plano que teria um maior desenvolvimento posterior: uma espécie de canibalismo descolonizador, desenvolvendo o desejo por um modelo de pensamento cultural que reforçava os projetos lançados em 22: a vernaculização da “língua brasileira” calcada na síntese das expressões regionais da prática oral de todo o Brasil; assim, não propunha que se devia escrever não o que “houve” mas o que se “ouve”..."

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Ribeiro, Joaquim (1958) "Rui Barbosa e João Ribeiro". Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura/Casa de Rui Barbosa.

Quarta-feira, Março 08, 2006

Em Defesa de Uma Língua Moderna

Trechos da entrevista concedida por José Luiz Fiorin (um dos mais importantes e respeitados lingüistas do Brasil, professor do Departamento de Lingüística da USP), ao jornal Folha da Região da cidade de Araçatuba (SP) em 27/02/2000.
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Folha da Região — O país comemora os 500 anos de descobrimento. Qual a sua análise sobre a trajetória da língua portuguesa no Brasil durante esse tempo?

José Luiz Fiorin — O mais interessante é que não temos hoje nenhuma subordinação lingüística a Portugal. As línguas variam no espaço, mesmo dentro do Brasil. O falante do Rio Grande do Sul não fala como o falante do Nordeste ou de São Paulo. No caso do Brasil, a trajetória da língua portuguesa é interessante porque nos separamos radicalmente dos padrões lingüísticos falados em Portugal. Temos hoje uma quase língua brasileira, que é diferente do português europeu, o que indica que na nossa trajetória não houve só independência política de Portugal, mas lingüística também.

Folha da Região — Qual o papel do dicionário: é um regulamentador da língua?

José Luiz Fiorin — Isso é interessante. Alguns desses gramáticos que têm programas de televisão e escrevem nos jornais dizem que a língua deve ser regulamentada pela gramática e pelo dicionário. Isso é impossível. O que regulamenta a língua é o uso. O dicionário é uma coleta de usos da língua. E, portanto, não é o dicionário que regulamenta a língua. É o contrário. O dicionarista é um mapeador dos diferentes usos da língua numa determinada época.

Folha da Região — O que o sr. acha da presença de estrangeirismos na língua portuguesa no Brasil? É preciso evitar?

José Luiz Fiorin — O deputado federal Aldo Rebelo, líder do PC do B na Câmara, apresentou um projeto que se chama “Promoção, Defesa e Proteção do Idioma”. Nesse projeto, o deputado pretende que a publicidade deixe de usar palavras de língua estrangeira. Ora, o léxico de uma língua é formado de palavras vindas de todas as procedências. Hoje, dizem que temos uma invasão do inglês. No começo do século, diziam que era do francês. Na época, os puristas propuseram uma porção de vernáculos para substituir as palavras de línguas estrangeiras, que não pegaram, como chamar futebol de ludopédio. Contraria a natureza da língua essa regulamentação por lei. É o uso que faz a língua. É claro que do estrito ponto de vista comunicacional, não é admissível colocar “delivery” ao invés de “entrega em domicílio”. Agora, do ponto de vista da conotação da modernidade, o uso do inglês tem um sentido ligeiramente diferente. “Entrega em domicílio” conota todas as tradições brasileiras, enquanto “delivery” conota a modernidade, a eficiência. E a gente não pode ignorar essas coisas, fazendo uma lei que determine o que as pessoas vão falar, assim ou assado.

Folha da Região — A última edição do dicionário Aurélio traz palavras provenientes da informática, como deletar. Qual a sua opinião?

José Luiz Fiorin — Eu acho um pouco estranho que usemos ataxar ao invés de anexar, ou que usemos inicializar. Mas o caso de deletar é mais gozado ainda, porque é uma palavra de origem latina que está no inglês. Em latim, “delere” significava destruir. E daí, nós temos a palavra indelével, ou seja, aquilo que não pode ser apagado. Nós, que falamos uma língua latina, estamos recebendo do inglês uma palavra de origem latina. É irônico. Mas adianta eu dizer fica proibido o uso da palavra deletar? Não é assim. Deletar não significa hoje o mesmo que apagar. Deletar é fazer desaparecer o que está escrito somente no computador. Não posso dizer deletar para apagar algo escrito a lápis. A língua não vai superpondo palavras. São elas que vão ganhando sentidos diferentes.

Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006

Cultura, Identidade e Língua Nacional no Brasil: Uma Utopia?

Artigo de: Jean Baptiste Nardi

Tornou-se lugar-comum dizer que o português do Brasil é diferente do de Portugal. É uma questão polêmica que exaltam as paixões há mais de um século (Pinto, 1978). Nos debates para as Constituições de 1824, 1890 e 1946, apareceu como possibilidade a denominação de “língua nacional”, “língua brasileira” e até de “brasileiro” mas nenhuma chegou a ser concretizada. Entretanto é uma idéia que está caminhando (Dias, 1996; Pinto, 1978). Assim a língua brasileira passou a ser ordinariamente chamado de “português brasileiro” (Roberts/Kato, 1993; Couto, 1986) e muitas vezes de “brasileiro”. No entanto, é um real problema que, a qualquer momento de sua história, o Brasil terá que enfrentar e resolver, friamente, porque não é somente um problema de terminologia. Não se definirá a língua brasileira sem que se determine, simultaneamente, a identidade nacional; ambas são estreitamente ligadas e a questão da língua é tanto um problema de lingüística quanto de cultura e de sociedade.

PROBLEMÁTICA DA LÍNGUA BRASILEIRA

A problemática da língua brasileira é, antes, relativa à lingüística descritiva, aspectos que fogem de nosso propósito. Tecnicamente, o português brasileiro é um dialeto do português de Portugal - ou português europeu. Mas a palavra dialeto se refere a um espaço inferior à língua-geral ou língua-padrão, o que não é o caso do Brasil que representa mais de 80% dos lusófonos. O português brasileiro, portanto, não é um dialeto mas é, sim, uma variante de português. Historicamente, as variantes brasileira e portuguesa tiveram uma evolução separada a partir do século XVI, por múltiplas razões, e apresentam hoje diferenças estruturais importantes, de ordem lexical, sintático, morfológico e fonético. Até se considera que são dois idiomas distintos (Couto, 1986; Bagno, 2001).

O segundo problema, que se refere essencialmente à língua falada, é a ausência de norma - ou língua-padrão - nacional, o que já não é mais um problema exclusivamente lingüístico. A primeira causa é a falta de centro de referência nacional. Portugal conhece vários dialetos regionais mas tem Lisboa como pólo político, econômico e cultural; a norma lisboeta, portanto, prevalece. No Brasil não há centro por razões históricas, geográficas e demográficas. As cidades de Rio de Janeiro e São Paulo possuem uma inegável primazia cultural mas constituem duas referências lingüísticas originais que se diferenciam ainda dos outros centros que são as capitais dos Estados. A segunda causa é de ordem social: conforme a classe e o nível escolar, altos, médios ou baixos, a língua falada apresenta numerosas variantes. Existe então no Brasil, horizontal e verticalmente, uma importante variedade de dialetos e falas, regionais e locais, desiguais no teor e na representação populacional (Couto, 1986; Ferreira/Cardoso, 1994; Hauy, 1987; Perini, 1986; Silva, 1997; Bagno, 2001).

Estabelecer uma norma falada - e ensinada - no Brasil, portanto, não é um problema simples. Existem duas linhas de pensamento opostas, uma que defende a integridade da língua portuguesa, outra que preconiza uma reforma radical em função das especificidades brasileiras. Todavia, não há nenhum motivo para que predomine a língua falada por uma cidade, uma região ou uma classe social e também não se pode imaginar uma solução regressiva que consistiria em decalcar a norma sobre a língua falada. Existe realmente um termo médio? A resposta está nas pesquisas que estão sendo realizadas desde alguns anos no campo da lingüística (Callou/Lopez, 1994; Castilho, 1988;1989, 1990-1996; Mota, 1994; Roberts/Kato, 1993). Mas qualquer que seja a solução, não poderá haver reforma sem escolhas arbitrárias e eliminações que surtiram sofrimentos e frustrações nos que, com total dedicação, envolvem-se na questão da língua (Cunha, 1972; Guimarães/Orlandi, 1996; Signorini, 1998).

Entretanto, por falta de padrão no Brasil prevalece a norma portuguesa no ensino, criando o terceiro problema da língua brasileira. Com efeito, mantendo-se a norma portuguesa, embora com algumas adaptações (Ilari, 1985) - o que se chama português brasileiro -, afastou-se a língua ensinada da língua realmente utilizada pelos nativos, não somente na fala como também na escrita (Couto, 1986; Pinto, 1990). Marcos Bagno fala logicamente - já que considera que português e brasileiro são duas línguas - de diglossia ou bilingüismo (Bagno, 2001). Como o brasileiro pode se situar, culturalmente, nesse labirinto? A falta de norma brasileira acarreta problemas que ultrapassam as questões de lingüísticas ou de ensino.

A LÍNGUA COMO EXPRESSÃO DO POVO

A discussão sobre a questão da norma e do ensino da língua não pode ser resolvida sem levar em consideração este aspecto fundamental: a língua é expressão de um povo. É unânime a comunidade científica quando diz que o grupo social manifesta seu pensamento e sua visão do mundo por meio da sua língua, ou seja, como disse Martinet, o pensamento não pode existir sem a língua (Martinet, 1970:9).

Em todas as circunstâncias, e independentemente de seu nível escolar, o homem pensa primeiro na língua que fala e é através desta que ele transmite seu pensamento. Negada a possibilidade de expressão pela língua falada na sociedade - porque não corresponde à língua de comunicação oficial - limita-se o pensamento. O discurso do homem permanece a nível do solilóquio, das relações familiares ou da vizinhança. A sociedade perde assim a oportunidade de, talvez, aprender dele um pouco de sua mundividência, um pouco dela mesma. Se a língua de comunicação, oficial e ensinada, é muito diferente da língua falada, ela introduz confusões na expressão e, simultaneamente, no pensamento: o homem não pode pensar de maneira clara e lógica. Em conseqüência, a sociedade perde outra oportunidade que é aumentar suas capacidades de conviver em harmonia com o mundo, físico e humano, e desenvolver-se. Em outras palavras, a língua que não permite a completa expressão do pensamento do homem não é representativa da sociedade a que ele pertence; ela cria uma situação contrária aos interesses da mesma sociedade.

É sem dúvida o que acontece no Brasil e é provavelmente por essas razões que não existe, como lamentou, entre outros autores, Regis de Morais, “uma produção filosófica brasileira” (Morais, 1989:30). Também podemos ver nisso causas parciais à impossibilidade que tiveram Carlos Guilherme Mota e Dante Moreira Leite, após minuciosos estudos, de definir a cultura brasileira e o “caráter nacional brasileiro” (Mota, 1994; Leite, 1992). E, de maneira mais ampla, podemos aplicar ao Brasil o que disse um dirigente africano a respeito das relações entre língua francesa e línguas nacionais: “Negar [estas] línguas e o papel que podem e devem jogar, reduzi-las ao nível de sublínguas, veículo de subcultura para subclasse, lugar de uma dupla alienação e de uma dupla marginalização, é negar à África toda possibilidade de desenvolvimento específico, é retirar-lhe o direito à palavra” (Bal, 1979:247).

Em suma, a inadequação formal entre a língua oficial e ensinada e a língua falada, dificulta a criação, o desenvolvimento, a expressão e a divulgação do pensamento brasileiro e, de maneira mais ampla, de toda a cultura brasileira. Como, nessas condições, não acreditar na necessidade de reformas na língua oficial do Brasil?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BAGNO, Marcos. Português ou Brasileiro? Um Convite à Pesquisa. São Paulo, Parábola, 2001.

BAL, Wil. Contribution à l’étude des opinions exprimées par l’élite africaine au sujet des rapports entre les langues nationales et le français. in WALD, Paul / MANESSY, Gabriel (Orgs.). Plurilinguisme. Normes, situations, stratégies. Paris, L’Harmatan, 1979.

CALLOU, Dinah / LOPES, Célia Regina. A Língua Culta Falada na Cidade do Rio de Janeiro. Materiais Para Seu Estudo. Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, UFRJ, 1994.

CASTILHO, Ataliba Teixeira de (org.). Português Culto Falado no Brasil. Campinas, Editora da Unicamp, 1989.

CASTILHO, Ataliba Teixeira de (Org). Gramática do Português Falado. 5 vols. Campinas, Editora da Unicamp; São Paulo, FAPESP. 1990-1996.

COUTO, Hildo H. do. O Que é Português Brasileiro. Coleção Primeiros Passos, 164, 4ª ed., São Paulo, Brasiliense, 1986.

CUNHA, Celso. Língua Portuguesa e Realidade Brasileira. 3ª ed., Coleção Temas de Todos os Tempos, 13, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1972.

DIAS, Luiz Francisco. Os Sentidos do Idioma Nacional. Campinas. Pontes. 1996

FERREIRA, Marieta de Moraes (Org). História Oral e Multidiciplinaridade. Rio de Janeiro, Diadorim / Finep, 1994.

GUIMARÃES, Eduardo / ORLANDI, Eni Puccinelli. Língua e Cidadania. O Português no Brasil. Campinas, Pontes, 1996.

ILARI, Rodolfo. A Lingüística e o Ensino da Língua Portuguesa. São Paulo, Martins Fontes, 1985.

LEITE, Dante Moreira. O Caráter Nacional Brasileiro. História de Uma Ideologia. São Paulo, Ática, 1992.

MARTINET, André. Éléments de Linguistique Générale. Paris, Armand Colin, 1970.

MOTA, Carlos Guilherme. Ideologia da Cultura Brasileira, 1933. 1974. São Paulo, Ática, 1994.

PINTO, Edith Pimentel. O Português do Brasil, Textos Críticos e Teóricos. Fontes Para a Teoria e a História. t.1. 1820/1920, t.2. 1920/1945. Biblioteca Universitária da Literatura Brasileira, Série A, 4,5. São Paulo, Edusp, 1978.

PINTO, Edith Pimentel. O Português Popular Escrito. Coleção Repensando a Língua Portuguesa. São Paulo, Contexto, 1990.

ROBERTS, Ian / KATO, Mary A. (Orgs). Português Brasileiro. Uma Viagem Diacrônica. Campinas, Editora da Unicamp, 1993.

SIGNORINI, Inês (Org.). Língua(gem) e Identidade. Elementos Para Uma Discussão no Campo Aplicado, Campinas, Mercado e Letras; São Paulo, Fapesp, 1998.

Domingo, Fevereiro 19, 2006

Uma Língua Pode Ser Corrompida Por Outra?

Artigo de: Hirão Fernandes Cunha e Souza da Universidade Federal da Bahia (IC/CNPq - Grupo PROHPOR)

Com o processo de dominação implantado pelos povos no decorrer da história, a humanidade sempre viveu criando um mundo onde existissem dominantes e dominados.

O Império Romano, por exemplo, com o seu poderio econômico e militar, conquistou grandes extensões territoriais e impôs o seu poder a diversos povos. Na Península Ibérica, os romanos impuseram sua língua, o latim, aos povos que ali se encontravam. Nesse processo de romanização foi cultivada a idéia de que existem povos superiores, culturas superiores e, como não poderia deixar de ser, línguas superiores. Ocorre, porém, que cada povo possui sua própria cultura, seus próprios costumes e um sistema lingüístico perfeitamente adequado às suas necessidades comunicativas.

A intolerância estrategicamente cultivada de menosprezo aos povos considerados “inferiores” deixou uma herança catastrófica no que diz respeito à aceitação das influências culturais entre as diversas sociedades. Com relação à influência lingüística, criou-se a idéia de que a língua de domínio, a exemplo do latim, adotado por todos os povos da Península Ibérica, com exceção dos bascos, sofreu corrupção do contato dessa língua com àquelas faladas nas regiões conquistadas, os substratos. Desenvolveu-se uma ideologia de que a mudança ocorrida na língua do “dominador” por influência da língua do “dominado” seria algo ruim, e esta mesma língua, de domínio, estivesse, por essa razão, sendo corrompida.

Os estudos lingüísticos comprovam que não existem línguas superiores nem línguas mais complexas. As línguas são diferentes, cada qual com sua complexidade própria e adequada às necessidades de seus falantes. Comparar algo que é diferente pode ser um tanto quanto perigoso já que se corre o risco de utilizar parâmetros inadequados para tal confrontação. Partindo desse ponto, não é aceitável o pensamento de que uma língua pode ser corrompida por outra, como sugere Serafim da Silva Neto (1986[1950]: 118) abaixo:

"...a linguagem adulterada dos negros e índios não se impôs senão transitoriamente: todos os que puderam adquirir uma cultura escolar e que, por este motivo, possuíam o prestígio da literatura e da tradição, reagiram contra ela..."

Defender a idéia de corrupção de uma língua quando em contato com outra é aceitar a existência de povos superiores, culturas superiores e, portanto, línguas superiores. Admitir esse pensamento preconceituoso é ignorar que a língua está sempre em processo de mudança, de forma contínua e dinâmica, adaptando-se às necessidades do falante já que − parafraseando Fernão de Oliveira − é esse, diante de sua necessidade de comunicação, que faz a língua e não o contrário.

Portanto, cada língua é perfeitamente adequada ao grupo a que pertence e está sempre se modificando para satisfazer às necessidades exigidas pelo seu contexto social.

Seguindo a mesma linha de raciocínio de autores como Silva Neto (1986[1950]), seriamos forçados a aceitar a idéia absurda de que a língua portuguesa, “superior”, trazida pelos colonizadores com a expansão marítima portuguesa, foi corrompida quando em contato com os falantes nativos, os índios, principalmente da família Tupi-Guarani pertencente ao tronco Tupi, a influência, posteriormente, dos negros africanos trazidos para serem escravizados no Brasil e a vinda dos imigrantes europeus após a independência em 1822. Teríamos que ignorar o próprio Brasil, fruto dessa riquíssima mistura de culturas, costumes e línguas diferentes que formaram a nação brasileira e quem sabe até, para os adeptos da diversidade na unidade, a língua brasileira.

Referências Bibliográficas:

SILVA NETO, Serafim da. (1986[1950]) Introdução ao Estudo da Língua Portuguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Presença.

Domingo, Fevereiro 12, 2006

O Dicionário Brasileiro

Este artigo foi escrito em 1921, às vésperas das comemorações dos cem anos de independência do Brasil, pelo escritor Monteiro Lobato e está presente em sua obra A Onda Verde.
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Assim como o português saiu do latim pela corrupção popular desta língua, o brasileiro está saindo do português. O processo formador é o mesmo: corrupção da língua mãe. A cândida ingenuidade dos gramáticos chama "corromper" ao que os biologistas chamam "evoluir".

Aceitemos o labéu e corrompamos de cabeça erguida o idioma luso, na certeza de estarmos a elaborar uma obra magnífica. Novo ambiente, nova gente, novas coisas, novas necessidades de expressão: nova língua.

É risível o esforço do carrança, curto de idéias e incompreensivo que deblatera contra esse fenômeno natural e tenta paralisar a nossa elaboração lingüística em nome dum respeito supersticioso pelos velhos tabus portugueses... que corromperam o latim.

A nova língua, filha da lusa, nasceu no dia em que Cabral pisou no Brasil. Não há documentos, mas é provável que o primeiro brasileirismo surgisse exatamente no dia 22 de abril de 1500. E desde então não se passou um dia talvez em que a língua do reino não fosse na colônia infiltrada de vocábulos novos, de formação local, ou modificada na significação dos antigos.

Hoje, após 400 anos de vida, a diferenciação está caracterizada de modo tão acentuado, que um camponês do Minho não compreende nem é compreendido por um jéca de São Paulo ou um gaúcho do sul.

Quer isto dizer que no povo - e a língua é um produto puramente popular - a cisão já está completa.

Nas classes cultas a diferença é menor, se bem que acentuadissima, sobretudo na pronúncia e no emprego de palavras novas. Até arcaísmos lusos ressuscitaram cá e são correntes de norte a sul. Um deles foi tomado como brasileirismo: o emprego do pronome pessoal "ele" como complemento direto. Ora, isso é coisa velha, forma anterior ao descobrimento do Brasil. Dizem os escabichados de antigualhas que é de uso corrente nos cancioneiros, na "Demanda do Graal", no "Amadis", etc. E citam em Fernão Lopes muito "viu ela", "nomeamos ele", etc. - de Fernão Lopes! um dos grandes pais da língua lusa.

Não é brasileirismo, pois, essa forma velha. É um lusitanismo ressurreto na colônia.

Hoje, do Amazonas ao Borges, o "ele" e o "ela" desbancaram o "o" e o "a" na linguagem falada, apesar da resistência dos letrados e a resistência da língua escrita. Não nos consta que algum escritor de mérito usasse na prosa ou no verso esse pseudo brasileirismo, embora falando familiarmente incida nele. Mas dia virá em que se rompa essa barreira, porque as correntes populares são irresistíveis, os gramáticos não são donos da língua, e esta não é uma criação lógica.

Verão, pois, nossos netos um futuro Rui Barbosa, de tanta autoridade como o atual, abrir uma oração política da mais alta importância com esta forma que inda choca o beletrismo de hoje: O Brasil, senhores, amei ele o mais que pude, servi ele o que me deram as forças, etc.

E verão um futuro Olavo Bilac lançar um "ouvir estrelas" assim:

Ontem divisei ela
na janela...

Será isso simplesmente a reabilitação da forma lusa dos pré-classicos, já vitoriosa na língua falada de hoje.

Riem-se? Não é matéria de riso. É a anotação singela da marcha dum fenômeno.

Ainda nos detém hoje o medo à férula dos gramáticos d'além mar e de seus prepostos no Brasil. Não obstante, a corrente do "ele" cresce dia a dia e acabará expungindo a do "o".

Além dessas incoercíveis modificações sintáticas, temos outra feição evolutiva operada em larga escala: a adoção de palavras novas por injunção das necessidades ambientes.

A língua é um meio de expressão. Modifica-se sempre no sentido de aumentar o poder da expressão. A variedade de coisas novas que tivemos necessidade de expressar, um mundo novo como o Brasil, forçou e força no povo um surto copiosissimo de vocábulos. Eles brotam por aí como cogumelos durante a chuva. Lutam entre si. Os fracos, os inúteis, caem, como frutos temporões bichados antes de maduros. Os bons, os expressivos e necessários, vencem e ficam na língua. A princípio, na língua falada. Depois penetram na chamada literatura regional. Passam dela aos glossários de brasileirismos e entram, por fim, consagrados, no panteão dos dicionários.

A extensão do nosso território favoreceu grandemente o neologismo. Houve além disso a contribuição copiosa do índio e do negro. Há agora a do italiano em São Paulo e a dos alemães no sul. A maioria destas palavras são de absoluta necessidade. Como falar da vida amazônica sem recurso às mil palavras de criação local? Como pintar o Rio Grande sem recorrer ao vocabulário gaúcho? E falar do Rio sem tomar as pitorescas invenções glóticas do cafajeste carioca? Há no português termos que substituam o "encrenca" e seus derivados, de criação catarinense? E a "uruca", a "caguira", o "engrossamento", como enunciar a coisa com palavras do Morais?

Sem coragem ainda de lançarmos o nosso dicionário, vemo-lo já em trabalhos preparatórios, a delinear-se nas obras de B. Rohan, Taunay, Romaguera e tantos outros coletores de regionalismos. Virá a seu tempo. Nos convenceremos um dia de que, se saímos de Portugal, nada mais temos com o ex-reino, hoje tumultuosa república. Virá, talvez, muito breve. O dicionário brasileiro já anda em elaboração em várias tentativas que nos chegaram ao conhecimento. E a prova da viabilidade da idéia está no interesse dos editores no assunto.

Em matéria dicionarística vivemos ainda hoje na absoluta dependência de Portugal. Temos o que Portugal nos manda, Aulete, Vieira, Cândido de Figueiredo. Este nos deu a honra insigne de incluir na sua obra uma boa cópia de brasileirismos, para contentar a colônia e fazer bom negócio nela. Os mais são dicionários rigorosamente portugueses.

Quem lê Alberto Rangel, por exemplo, o mais rico bateador de termos regionais da nossa literatura, em muitos pontos não tem meios de lhe compreender o pensamento. Esbarra a cada passo com uma palavra regional coletada por ele, e se recorre aos dicionários fica na mesma.

No próprio Rui Barbosa quantas palavras não existem que o carrança português não nos deu a honra de "endicionariar"?

Isso, porém, não é culpa deles, que fazem léxicos portugueses, para seu uso lá. A culpa é nossa, pois já era tempo de termos publicado o nosso dicionário.

Pensando bem a matéria, temos de empreender a obra nas seguintes bases: eliminar do novo dicionário todas as palavras portuguesas não usadas no Brasil, já arcaísmos, já lusitanismos de moderna criação popular, absolutamente inúteis para as nossas necessidades expressivas. Eliminar todas as palavras coloniais portuguesas que atravancam os dicionários atuais, fazendo-os obesos. Dar, principalmente, a significação que os vocábulos portugueses têm aqui no Brasil, e subsidiariamente a que têm no ex-reino. Introduzir todas as nossas criações lingüísticas, as coletadas pelos glossaristas e as que andam soltas. Fazer, em suma, o dicionário prático de que precisa quem vive nesta terra, que já foi colônia e está custando a se convencer de que não mais o é.

Será, pois, uma obra de grande utilidade e alto alcance, porque consolidará definitivamente o cisma operado na velha língua lusa.

Acontece hoje o seguinte: um menino abre o Aulete e procura a palavra "Hein"; e vê lá a pronuincia "an-e". Ri-se, está claro, e chama "âne" ao pobre Aulete.

Outro vai ao Cândido de Figueiredo em busca da palavra "chopim", que ele ouve todos os dias aplicada a um passarinho preto que parasita o tico-tico, e por analogia aos maridos de professoras. Não encontra. Mas encontra, por exemplo, "caloqueio", pássaro africano. Temos de abrir a gaiola ao caloqueio e por em seu lugar o chopim. Está aquele estafermo a empatar um poleiro precioso.

Dirão: seria melhor conservar todas as palavras portuguesas e incluir todas as nossas. Isso seria fazer uma almanjarra ineditável, ou caríssima, ao passo que o peneiramento acima proposto aliviaria a obra das múmias inúteis que se esmirram ali, dos exotismos da Índia e de Angola com que nada temos que ver, daria livro maneiro, cômodo, num volume só, e por preço ao alcance do povo.

Acoimam o nosso pobre povo de ignorante mas não lhe dão sequer um dicionário da língua, bom e barato! Os sucedâneos portugueses que lhe indicam, sobre lhe não satisfazerem as exigências, custam os olhos da cara, oitenta, cem mil réis.

Além desta novidade o novo dicionário tem que dar o máximo rigor às definições, aproximando-se dos grandes dicionários estrangeiros, Webster à frente. Fugirá, assim às sandices que Aulete e Figueiredo incriminaram aos anteriores e em que incidiram, se bem que em menor escala.

Abro ao acaso este último e leio: "desarvorado: - que fugiu desordenadamente". Logo: navio desarvorado - navio que foge desordenadamente.

E são os papões da língua. Dão-nos em cima de palmatória e nos ensinam o que se não deve dizer, esquecidos de que não se deve dizer, sobretudo, asneiras.

Muita coisa se projeta para a comemoração da independência. Se for levado a termo o Dicionário Brasileiro, nenhuma comemoração será mais significativa. Valerá na "realização" duma independência "proclamada" que vai fazer cem anos.

Sábado, Fevereiro 11, 2006

Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro


Poema de: Oswald de Andrade

Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006

O Descobrimento Que Não Houve

Artigo de autoria da antropóloga Aldeneiva Celene de Almeida Fonseca publicado no jornal A TARDE em 01/04/1997, pág. 06.

A proximidade do V Centenário de História do Brasil nos incita à reflexão. Sem falar da natureza - num país mestiço - dessa co-memoração*, a primeira delas diz respeito à própria redefinição do seu marco de referência, o chamado "Descobrimento do Brasil".

Pode parecer audacioso, e pretensioso, querer contestar, num pequeno artigo, uma tese tão arraigada nos espíritos. Mas a própria enormidade do "equívoco" nos indica que sua correção deve ser tentada no terreno político e informacional.

Mas vamos aos fatos. O evento fundador da história (escrita) do Brasil está mal definido. Considerando-o sob diversos ângulos nós veremos que mesmo do ponto de vista europeu não houve descoberta, ou melhor, o descobrimento não pode ter sido português. Isto porque Colombo precedeu os portugueses não somente ao "descobrir" as Antilhas, em 1492, como também quando localizou a terra firme (o continente), em sua terceira viagem, em 1498. Ora, nós temos aí um fato irrefutável: como se trata de territórios contíguos, qualquer outra "descoberta" ao longo da costa desse continente está, evidentemente, subordinada à descoberta espanhola. Se assim não fosse, nós teríamos uma infinidade de descobertas!

Portanto, o "Descobrimento do Brasil" não pode estar desvinculado do "Descobrimento da América". Não pode haver descobrimento em separado. A chegada de Cabral ao Brasil está associada à chegada de Colombo à América e é secundária em relação a esta. (Isto é tão patente que, na Europa, afora Portugal, Cabral é praticamente desconhecido).

Também, de acordo com o contexto da época não se poderia dizer que houve descobrimento especificamente português. Pois é quase impossível - visto a espionagem (e a política de sigilo) - que D. Manuel não tivesse sido informado, ainda em 1498 ou 1499, da localização do continente. E mesmo que ele não soubesse! A vigência, desde 1494, do Tratado de Tordesilhas, indica que essas terras eram virtuais possessões portuguesas e espanholas. Eles já as vislumbravam: afinal de contas, não é comum legislar sobre quimeras!

A coisa estava tão bem entendida que os espanhóis nem reivindicaram para si essas terras. Apesar de já haverem, inclusive, estado no Brasil pouco antes de Cabral (Vicente Yañez Pinzón e Diego de Lepe, em Pernambuco). O mais plausível, portanto, é que Cabral tenha vindo com a missão de tomar posse da terra, antes que os perseverantes espanhóis (apesar do Tratado) o fizessem.

Para os índios, em contrapartida, houve verdadeira surpresa: depois do "canoa grande à vista" aquela costa foi tomada pela perplexidade…

A "Descoberta da América" também está mal explicada. Já se sabe que os vikings precederam os espanhóis (na América do Norte) por volta do ano 1000. Logo, pode-se afirmar, mutatis mutandis, que a América foi redescoberta pelos europeus em 1492.

Contudo, na era da globalização exige-se uma visão mais abrangente e racional. Pois bem, do ponto de vista da história humana, a descoberta foi asiática. Os modernos conhecimentos científicos apontam não só para a unidade global da humanidade, mas também para o fato de que os antepassados dos índios vieram da Ásia e, segundo as teorias mais aceitas, passaram à América há 30 ou 40 mil anos, pelo estreito de Bering. São os índios os verdadeiros descobridores do continente. Cedo os europeus se deram conta disso, quando ao tentar colonizá-lo (e inclusive delimitar fronteiras) tiveram que contar com os indígenas e sua "ciência".

A atual definição do acontecimento de 1500 carece de sustentação empírica. Como o Brasil não tem apenas 500 anos, é preferível falar em Chegada dos Portugueses, que foi seguida da Conquista.

Mas por que persistir no deliberado engano? A perpetuação do equívoco atesta a existência de beneficiários deste sistema de exclusão. Sim, porque a formulação simbólica do evento basilar de nossa história escrita não é inocente. Nem é um detalhe! Ela está diretamente relacionada à constelação causal etnocentrismo/ colonialismo/ escravismo/ genocídio/ etnocídio/ racismo. Donde a insidiosa desumanização e desqualificação do Outro. Este "outro" que é parte (da maioria) de nós, pois também nossos ancestrais.

Os caipiras não podem mais se deixar enganar. Momento de reflexão e revivescência de um passado comum o V Centenário de História do Brasil deve ser co-memorado* por todos os partícipes da construção do país. É a oportunidade ideal para desencobrir os fatos e simultaneamente renovar a luta contra o (doloroso) racismo, aumentando assim nossa auto-estima. Porém, a contracorrente dos outros países americanos, que não permitiram que se festejasse Colombo sobre seu território - a grande festa aconteceu em Sevilha -, o governo brasileiro pretende implantar um projeto arcaico, de fatura colonial, que homenageia os Conquistadores, como se o Brasil fosse monoliticamente português e não pluriétnico e mestiço. No projeto, o Brasil se inscreve como mero coadjuvante de uma vitoriosa campanha diplomática portuguesa, com raízes em Tordesilhas.

A real dimensão do Brasil só virá pela sua inserção no contexto global da história humana. Disso depende a legitimação do continente mestiço. Dessa vez , nós não podemos deixar passar o moderno bonde da história.


*As palavras "co-memoração" e "co-memorado" estão grafadas assim de forma proposital.